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APRESENTAÇÃO

Apresentação

Cada um tem sua história

Este é um lugar onde palavras não são apenas palavras — são sementes. Algumas foram plantadas há décadas, em páginas de um diário da juventude. Outras nasceram da imaginação, em forma de fábulas e contos. E há ainda aquelas que chegaram até mim vindas de outros tempos, de autores que o tempo preferiu não esquecer.

Todas, porém, têm algo em comum: merecem existir.

Aqui você encontra: Histórias que carregam valores, lembranças e ensino para crinças e adultos. É só clicar nos links abaixo e entrar na página referente à sua escolha:

 Contos da Floresta — Onde os valores do caráter estão presentes na vida de animais fofos que vivem na floresta colorida.

 Memórias da Juva — Memórias que provam que a juventude nunca será esquecida.

 Outras Histórias — Histórias populares de autores desconhecidos que merecem ser lidas e contadas.

Contos aleatórios – Meus contos (autorais)

 Joia de crochê – Fragmentos de uma história tecidos à mão.

Missões Minas Infantil – Material de didático

Cada seção é um canteiro. Cada história, uma flor. Regue-as com sua atenção, ou simplesmente deixe-as existir — já é o bastante.

Senhorinha Gervásio

Cada um tem sua história

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CONTOS ALETÓRIOS

Insanidade

Ao entrar no consultório a média percebe algo de estranho. João de Deus está lá sentado à sua espera. Como conseguiu entrar sem ser visto, não faz a menor ideia. Ele sorri, estende-lhe a mão direita. Seus olhares se cruzam no momento do cumprimento e ela abaixa os seus. Não consegue identificar que espécie de olhares são. Ele não deveria estar aqui, pensa quase em voz alta. Este não é o dia de sua consulta. Um frio lhe percorre a espinha de alto a baixo e seu corpo estremece de forma tal, que só de pensar na possibilidade de seu incômodo ter sido percebido por ele lhe faz enrubescer. Como médica já lidou com pacientes de todos os tipos. Afinal, escolheu esta profissão e gosta de ajudar as pessoas não importando qual o seu estado.

Tentando parecer calma, a médica vai até à pia e lava vigorosamente as mãos, demorando bem mais tempo do que o necessário, enquanto pensa numa forma de resolver a situação. Sabe que o paciente do horário, em breve reclamará pelo atendimento. Vai até o cabide pega o jaleco, vestindo-o sobre as roupas. João de Deus fecha os olhos e esfrega as mãos.

Terminado o processo preliminar a médica senta-se do outro lado da mesa e pergunta tentando parecer natural:

– E então, sr. João hoje não é seu dia de consulta. O que o traz aqui?

João de Deus que até então estivera se contendo o nervosismo, sorri pelo canto da boca e inicia uma conversa entrecortada de pequenas contorções da cabeça para o lado esquerdo apresentando, ao mesmo tempo, certa irritabilidade na voz.

– Para seu governo eu venho aqui o dia que quiser. Não preciso de hora marcada. E também eu tenho que lhe contar um segredo e não podia esperar.

Percebendo seu estado de espírito a doutora tem o ímpeto de pegar o fone, mas não o faz antes de avisá-lo que comunicará à secretária que atrasará um pouco para atender ao primeiro paciente da tarde. Após o que, voltando-se a ele interroga:

– Então sr. João o que o aflige?

– Em primeiro lugar, eu sou o seu paciente número um de hoje.

Meneando a cabeça afirmativamente ela o incentiva a continuar. E João de Deus abre o coração à sua terapeuta, enquanto ela a escuta com a sabedoria dos que escolhem amar as pessoas incondicionalmente, escolhendo as mais difíceis atividades das ciências humanas.

Nos sessenta minutos seguintes a doutora ouve uma história extraordinária, daquelas que só mentes dotadas de transtornos perversos podem arquitetar. João de Deus lhe confidencia o trajeto peculiar de sua vida. Fala de suas mais tristes lembranças infantis, quando sua mãe depois de o surrar demoradamente deu cabo da vida, ficando ele aos cuidados de uma tia chamada Mirte. Com Tia Mirte ele conheceu o lado bom da vida. Esta desde o dia que o tomou por responsabilidade nunca o maltratou nem sequer com uma palavra mais dura. Dava-lhe todo carinho que alguém pode dar a outrem, chegando a ultrapassar os limites do incesto que durou cerca de doze anos. Aos quinze anos, no auge de sua paixão pela tia, João Deus sofre mais um golpe na vida quando, dizendo estar grávida se despede e some.

Perambulando pelos guetos do sofrimento João de Deus, depois de algum tempo se une a uma mulher que tem uma filha chamada Clarice. Mas Clarice não o chama de pai e ele não gosta. Ela nunca quis chama-lo de pai.

Nesse momento a doutora faz uma intervenção, tentando entrar na mente João e entender o que se passa:

– O senhor consegue verbalizar o por quê de querer tanto que Clarice o chame de pai?

– É para o bem dela

– Como assim?

– Doutora, o pai ama de jeito diferente. Se não sou o pai amo de outro jeito.

A doutora ajeita o corpo na cadeira, denunciando desconforto

– A senhora está certa doutora! É isso mesmo!

– Sr. João eu não disse nada!

– Mas pensou em dizer. Eu abusei de Clarice. É eu abusei. E ainda tem mais doutora eu amo a mulher do 101, não consigo viver sem ela. Eu a estuprei, ela me matou. Ela me matou! Pode isso doutora, ela me matar?

João de Deus contorce a cabeça para o lado esquerdo mais fortemente e cai num choro descontrolado. A doutora atordoada pega o fone e avisa a secretária, para que discretamente, diga aos que estão na sala de espera que ela está passando mal e que não tem nenhuma condição de atendê-los.

Com a delicadeza dos que lidam com os distúrbios e fraquezas humanas a secretária avisa aos pacientes que saem pela porta da frente. Um deles como uma estátua continua sentado à espera de ser atendido. A secretária faz uma última tentativa para que esse retire.

Minutos depois, a doutora ouve o tumulto iniciado pelo paciente, envolvendo a secretária. De sua sala ouve os gritos e choro, primeiro na sala de espera, depois no corredor e enfim na porta do seu consultório. Ao mesmo tempo que grita com a secretária e com o segurança o paciente ri um riso ensimesmado.

João de Deus atordoado no meio da confusão, com os mesmos olhares do início despede-se da doutora, fazendo-lhe muitos agradecimentos. Sorri estendendo-lhe a mão:

– Vou à polícia agora mesmo.

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