Àqueles que não só me viram nascer e crescer, mas que souberam e sabem me entender nas horas alegres e críticas da vida.
Àqueles que me serviram de segunda família, levando à frente a tocha da luz do saber e que atraída pela sublime bondade eu os segui.
Àqueles que me serviram de segunda família, levando à frente a tocha da luz do saber e que atraída pela sublime bondade eu os segui.

Àquele que mui carinhosamente me ajuda a chegar mais perto do meu ideal, ajudando-me a desenvolver o talento que Deus me deu.
Àqueles que me amam apesar dos defeitos, que são muitos. Dedico estas páginas.
05 de outubro de 1977.
OBRIGADA, SENHOR, POR TUDO QUE TENHO
Sentei-me com resolução. Por várias vezes havia tentado fazer isso, não tinha dado certo; o porquê não sei bem. Talvez, devesse ser pelo orgulho, soberba que sem perceber havia deixado que se apoderassem de mim. Estava cansada de choramingar e, cabisbaixa querer sempre mais, mais e mais. Querer tudo, sem olhar para trás, para aqueles menos possibilitados que eu. Querer mais sem enxergar que o que tinha dava bem demais para que eu vivesse a sorrir.
Sentei-me sem me preocupar com olhares e comentários; acho que foi a primeira vez que agi assim. Sempre tive medo dos olhares e comentários! Vacilei por um instante; quis levantar-me, fugir, mas me contive. Queria olhar para a frente e via, mentalmente, o que tinha a conquistar. Então deixei que a força de vontade me dominasse. Ali, concentrada, com a cabeça entre as mãos, presenciei um lindo desfile: vi uma menina de uniforme e com livros passar por entre mil outras com o mesmo traje; vi essa mesma menina em pé, diante de uma tela, com pincéis e paleta às mãos, feliz a pintar e murmurar uma cantiga; vi a menina com a Bíblia nas mãos diante de outros meninos e todos cantavam. E esta menina era eu.
De súbito levantei a cabeça e sorri, achando tudo maravilhoso e agradeci a Deus por ter-me dado o privilégio de frequentar uma escola; por ter-me dado o talento de pintar e desenhar; por ter-me dado uma família e, especialmente, por ter-me dado a salvação.
Levantei-me, sim levantei, mas por outro motivo. Não era por fraqueza de não poder suportar o peso da renúncia. Levantei-me para admirar meus quadros, para sorrir a todos e dizer: obrigada, Senhor, por tudo o que tenho.
03 de outubro de 1977
A moça de Mutum e o cowboy de Aimorés
Era tarde de sábado na cidade de Aimorés estado de Minas Gerais. Um sábado qualquer, de um mês qualquer, de um ano triste. Todos os sábados pareciam iguais. Ela saía de Resplendor, no trem Rápido, descia em Aimorés e tomava um ônibus para Mutum. Na segunda-feira fazia o caminho inverso. Em Resplendor, cuidava da mãe doente, estudava as matérias do seu curso à distância, chorava seu amor perdido. Tudo isso fazia daquele ano, um ano triste.
Apesar de todos os seus sábados parecerem iguais, aquele foi diferente. Ao chegar à estação ferroviária em Aimorés, atravessou a praça central até o bar que era uma espécie de rodoviária. Chegou a cara no buraco do vidro e pediu:
– Uma pra Mutum.
Olhou o papel colado no vidro, descobrindo o aumento da passagem ocorrido naquela semana. Pediu que a moça esperasse um pouco antes de destacar a passagem. Conferiu seu dinheiro. Ele não dava para a viagem.
Saiu do local cabisbaixa e atravessou novamente a praça, como se estivesse carregando sobre os ombros a tristeza de todos os habitantes da terra. Não tinha ideia do que fazer! Sentou-se em um dos bancos. Revirou a bolsa mais uma vez na esperança de achar algum dinheiro solto em algum compartimento da mesma. Tempo perdido, não encontrou nada.
Contou novamente as cédulas e as moedas. Nenhuma delas havia dado cria. Colocou-as no bolso do jeans desbotado.
Caminhou até a estação, à procura de alguém conhecido que pudesse lhe socorrer. A estação estava deserta. Voltou à praça, sentando novamente no mesmo banco. Seus pensamentos giravam desconexos. A única coisa sóbria que lhe vinha a mente era a frase:
– Deus mande alguém pra me socorrer! Tem que ser agora Deus, porque senão o ônibus parte.
Com a cabeça baixa e as mãos na testa ali ficou à espera do milagre. Foi quando viu um par de botas em pé à sua frente. Seus olhos ficaram fixos. Depois pouco a pouco foi vendo parte a parte aquela figura impoluta. Primeiro a calça jeans Lewis. Depois, a fivela grande e prateada do cinto com a figura de um cavalo. Viu a camisa xadrez de vermelho, o rosto másculo e bonito emoldurado com um chapéu de couro. Parecia a perfeição em forma de homem.
Com voz mansa lhe falou.
– Posso me sentar?
– Oh sim! Claro! – Respondeu a moça no grau extremo de sua timidez.
A conversa foi iniciada. Ele falou de música, de rádio. Era de Belo Horizonte, mas estava em Aimorés, trabalhando na rádio e cantando música sertaneja.
– E você, o que faz aqui? – perguntou com ar simpático.
A moça iniciou sua história recente. Após contar seu drama, ele abriu a carteira retirou uma cédula e lhe estendeu:
– Vá lá e compre sua passagem.
Ela saiu apressada rumo ao guichê. Não antes, de fazê-lo prometer que a esperaria ali para receber o troco.
Ao voltar o banco estava vazio. Ele havia sumido. Olhou por todos os lados, mas não o encontrou. Nem pôde agradecê-lo!
Mais de trinta anos são passados. E eu, a moça de Mutum agradeço sempre a Deus a sua vida e minha prece nesse tempo todo é a mesma:
– Deus, se ele ainda estiver vivo, estende tuas mãos de bondade e misericórdia sobre ele, o anjo cowboy, que o Senhor usou para me socorrer, naquele sábado triste em Aimorés.
Publicação feita por mim pela primeira vez em 22 de agosto de 2014 no seguinte endereço
